cabe a mim, retirar dentes desse já
velho corpo
que meus cabelos brancos
quebrem por vez
que em minhas mãos finalmente apareçam
as manchas do tempo
que meus olhos cansados por fim pisquem mais lentamente
chega desse ritmo louco, que a vida me impôs
chega, pois não é preciso suportar um olhar que não te olha
que os traços não sejam mais feitos por um bisturi
pois destas marcas eu já sou íntima
e não mereço que me relembrem
que eu não deposite em ti
a culpa dos meus próximos dias
que eu respeite minha dor
que eu a sinta simplesmente
e não mais a renegue, a substime
pois a tanto me acompanha
que talvez seja a única e real compania possível
que eu não busque entendimento
que eu chore sim
mas que depois essa lágrima mate minha sede
que eu volte a levantar os olhos
todavia, não mais esperançosa em oferecer-lhes luz
pois hoje eu vi
minha alegria dá pena
meu amor foi embora
digo amor
de sentimento depositado
foi não porque quis
e quando vai assim, vai inda ficando
vai esquecendo o chapéu
foi porque não foi bem cultivado
depois da ação de qualquer força da natureza
de nada adianta ao semeador
saber o que, afinal, destruiu seus amados frutos
resta somente
nutrir o solo, plantar a semente, e tomar um sol na varanda
assuviando qualquer canção de ninar
sábado, 3 de julho de 2010
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